Check-in num hotel de Paris, 22h, depois de doze horas de voo. A recepcionista passa o seu cartão e o visor pergunta, em inglês, se você prefere pagar em euros ou em reais. Em reais parece mais seguro — pelo menos você sabe quanto vai sair. Você aceita. Quatro noites depois, na fatura, a hospedagem custou uns duzentos reais a mais do que a cotação do dia dizia, e o IOF veio cobrado do mesmo jeito. Ninguém te conta isso no balcão: a moeda que aparece no visor não é a que decide o imposto, e a taxa de câmbio que o hotel usou não é a do Banco Central.
A pergunta «qual é a melhor forma de pagar hotel no exterior» costuma receber uma resposta de uma linha — «use uma conta global» ou «pague no crédito». Nenhuma das duas está errada, e nenhuma resolve o problema, porque a hospedagem é a despesa em que mais coisas acontecem ao mesmo tempo: uma pré-autorização que trava o limite antes de você chegar, uma taxa de turismo que se paga na recepção, uma plataforma que se oferece para cobrar em reais e uma conversão que pode ser feita por quatro agentes diferentes — o hotel, a plataforma, a bandeira ou o seu banco. Cada um com o próprio preço.
Este guia separa esses pedaços. A regra oficial (Decreto nº 6.306/2007 e Resolução BCB nº 277/2022), o que cada meio de pagamento custa de verdade para um hotel de € 1.200 na cotação PTAX de 18/09/2026, o que aparece no balcão e não estava na reserva — com as taxas de Paris, Amsterdã, Roma, Lisboa e Nova York — e o passo a passo do clique na reserva até a conferência da fatura. Só fontes oficiais e páginas dos próprios bancos, plataformas e bandeiras, todas abertas em 19/09/2026.
O essencial em 30 segundos
- >O IOF é de 3,5% para qualquer cartão emitido no Brasil — crédito, débito, pré-pago ou conta global — e incide sobre o valor já convertido em reais, spread incluído (Decreto nº 6.306/2007, art. 14 e art. 15-B). Um cartão de banco estrangeiro não paga IOF nenhum.
- >Desde 01/03/2020 a compra no cartão é convertida pela cotação do dia da compra, não do vencimento da fatura; a fatura tem de mostrar o valor em dólar, a taxa de conversão e o valor em reais de cada gasto (Resolução BCB nº 277/2022, arts. 52 e 54).
- >Para um hotel de € 1.200 na PTAX de 18/09/2026 (R$ 5,9126), a diferença entre pagar com conta global de spread baixo e com cartão de banco tradicional fica entre R$ 260 e R$ 410 — e aceitar a conversão para reais no balcão pode custar mais do que qualquer um dos dois.
- >Na União Europeia, quem oferece converter a compra para a sua moeda no balcão ou no caixa é obrigado a mostrar a margem em porcentagem sobre a taxa do Banco Central Europeu antes de você aceitar (Regulamento (UE) 2019/518, art. 3a, desde 19/04/2020). Se o visor não mostra, recuse.
- >A taxa de turismo quase nunca está no preço da reserva e se paga no hotel: € 8,45 por pessoa e noite num 4 estrelas de Paris em 2026, 12,5% do valor da noite em Amsterdã, € 7,50 num 4 estrelas de Roma, € 4 em Lisboa e cerca de 14,75% mais US$ 3,50 por noite em Nova York.
01O que diz a regra: 3,5% em qualquer cartão brasileiro, câmbio do dia da compra
Duas normas decidem quanto a sua hospedagem custa em reais. A primeira é o Regulamento do IOF, o Decreto nº 6.306/2007, cujo artigo 15-B recebeu em 2025 a alíquota única de 3,5% para os gastos pessoais de viagem. O texto que vale para o cartão que você entrega na recepção é este:
«VII - nas operações de câmbio destinadas ao cumprimento de obrigações das instituições que participem de arranjos de pagamento de abrangência transfronteiriça na qualidade de emissores destes, decorrentes de aquisição de bens e serviços do exterior efetuada por seus usuários [...]: 3,5% (três inteiros e cinco décimos por cento)» — Decreto nº 6.306/2007, art. 15-B, na redação do Decreto nº 12.499/2025
Os incisos vizinhos fecham o cerco: 3,5% também para saques no exterior (inciso IX), para o carregamento de cartão pré-pago e cheques de viagem (inciso X), para a compra de moeda em espécie (inciso XX) e para a transferência de reais para uma conta sua no exterior — que é o que acontece quando você carrega uma conta global (inciso XXI). Não existe meio de pagamento brasileiro que escape. O que existe, e é outra coisa, são bancos que devolvem o imposto como promoção — assunto de outro guia.
Dois detalhes do mesmo decreto mudam a conta. O artigo 14 diz que a base de cálculo é «o montante em moeda nacional, recebido, entregue ou posto à disposição, correspondente ao valor, em moeda estrangeira, da operação de câmbio»: o IOF incide sobre os reais depois do spread do banco, ou seja, você paga imposto também sobre a margem. E o inciso V do artigo 15-B fixa alíquota zero para gastos feitos no Brasil com «cartão de crédito emitido no exterior»: o IOF é um imposto sobre operações de câmbio do sistema financeiro brasileiro. O que decide é o país do emissor, não a moeda da cobrança. Quem tem um cartão de banco europeu ou americano paga a diária sem IOF; quem tem uma conta brasileira que cobra em dólar paga os 3,5%.
A segunda norma é a Resolução BCB nº 277/2022, que herdou a regra da Circular nº 3.918/2018, em vigor desde 01/03/2020: a compra no cartão é convertida pela cotação do dia da compra, não do dia em que a fatura vence. O artigo 54 diz que a taxa de conversão «deve referir-se à data do respectivo evento» e que a conversão no dia do pagamento só vale «condicionada à expressa aceitação do cliente». O artigo 52 obriga a fatura a discriminar, para cada gasto, «o valor equivalente em dólar dos Estados Unidos na data de cada operação», «a taxa de conversão do dólar dos Estados Unidos para reais» e «o valor equivalente em reais». São essas três colunas que permitem conferir, linha a linha, quanto o banco cobrou de spread — e é por isso que este guia insiste em guardá-las.
Um parêntese sobre 2025, porque a busca ainda devolve páginas com alíquotas de outra época: o decreto de maio de 2025 foi sustado pelo Congresso em 25/06/2025, restabelecido por decisão do ministro Alexandre de Moraes no STF, e a Receita Federal retomou a cobrança de 3,5% em 17/07/2025. Qualquer artigo que cite outra alíquota para gastos de viagem está descrevendo um passado que não volta.
02Cinco caminhos do dinheiro até o hotel — e o que entra no custo de cada um
Toda hospedagem no exterior é paga por um destes caminhos. O que muda entre eles não é o imposto, que é o mesmo: é quem faz a conversão e quanto cobra por ela.
1. Cartão de crédito brasileiro, cobrado na moeda do hotel
O hotel cobra em euros (ou dólares, ienes, pesos); a bandeira converte para dólar; o seu banco converte para reais pela taxa dele, na data da compra, e acrescenta 3,5% de IOF sobre o total. O custo escondido é o spread: a diferença entre a cotação do banco e a PTAX. O próprio Nubank, num comparativo publicado no blog dele e atualizado em 16/09/2026, coloca o spread dos bancos tradicionais entre 4% e 6%, o de outros bancos digitais entre 3,5% e 5,5%, e o do seu cartão Ultravioleta em 3,5%. São números de um concorrente sobre os outros — mas a ordem de grandeza bate com o que qualquer fatura mostra quando se divide a coluna «valor em reais» pela coluna «valor em dólar» e se compara com a PTAX do dia.
2. O mesmo cartão, com conversão para reais no balcão (DCC)
É a pergunta do visor: «pay in BRL?». Chama-se Dynamic Currency Conversion, e quem converte é o hotel, por meio do banco dele — a uma taxa que ele escolhe e sobre a qual coloca uma margem. A Visa Brasil é clara sobre os seus direitos: «Estabelecimentos comerciais e caixas eletrônicos devem dar a você a opção de aceitar ou recusar a conversão de moeda», e devem exibir «a taxa de câmbio usada para a conversão» e as «taxas adicionais ou margem de lucro avaliadas». Se faltar informação ou houver pressão, a orientação da bandeira é «recuse a oferta de conversão de moeda e relate o incidente ao emissor do seu cartão». Na União Europeia isso virou lei: o Regulamento (UE) 2019/518 obriga quem oferece a conversão «no caixa eletrônico ou no ponto de venda» a expressar o custo total «como uma margem percentual sobre a última taxa de referência do Banco Central Europeu», informada antes de você aceitar — em vigor desde 19/04/2020. Se o visor não mostra a porcentagem, o hotel está descumprindo a norma; e a compra continua sendo uma «aquisição de bens e serviços do exterior», então não conte com a conversão para escapar do IOF — confira na fatura como a linha foi classificada.
3. Conta global ou cartão pré-pago, carregado em reais antes de viajar
Você compra a moeda antes, à taxa da fintech, paga 3,5% de IOF no carregamento e gasta o saldo no hotel sem nova conversão — desde que o saldo esteja na moeda do hotel. Tarifas publicadas em 19/09/2026: Wise, conversão «a partir de 0,4%» sobre a taxa comercial, um saque grátis por mês e R$ 20 por saque depois; Inter Global Account, spread «até 0,99%», IOF de 3,5% na carga, 0,38% no resgate e, desde 04/09/2026, «uma taxa de 1% para realizar compras em moeda diferente do dólar americano»; Nomad, «encargos de 3,5% + taxa de conversão a partir de 1%» na carga, US$ 5 por saque fora da rede MoneyPass. Repare no detalhe do Inter e da Nomad: são contas em dólar. Um hotel em euros pago com saldo em dólar passa por uma segunda conversão, feita pela bandeira, à taxa dela. Para a Europa, o que interessa é uma conta que guarde euros.
O ponto fraco desse caminho é a caução. Um cartão pré-pago ou de débito funciona para pagar a conta, mas a pré-autorização que o hotel faz no check-in bloqueia saldo real, não limite — e a liberação depende do hotel, da bandeira e do emissor. Leve o crédito para a caução e use a conta global para pagar. A seção seguinte detalha.
4. Dinheiro vivo comprado no Brasil
A casa de câmbio embute tudo no VET (Valor Efetivo Total), que a Resolução BCB nº 277/2022, art. 18, define como o preço que considera «a taxa de câmbio, os tributos que incidem sobre a operação de câmbio e as tarifas eventualmente cobradas». O Banco Central publica o ranking mensal. Em julho de 2026, a mediana das 51 instituições que venderam euro em espécie para viagem foi R$ 6,2888 por euro, contra uma PTAX média de R$ 5,8421 no mês: 7,6% acima, IOF já incluído — ou seja, cerca de 4 pontos de spread puro. O melhor grande banco de varejo (Bradesco, R$ 6,2214) ficou 6,5% acima. É mais caro do que uma conta global e parecido com um cartão tradicional, com o inconveniente de andar com notas. Hotel aceita, mas em geral pede um cartão para a caução de qualquer forma; e há um teto para sair do país com espécie sem declarar — o guia sobre a alfândega explica o limite e o formulário.
5. A plataforma cobrando em reais
Alguns sites de reserva oferecem pagar «na sua moeda». Os Termos da Booking.com descrevem o mecanismo com honestidade: «todas as nossas taxas e cobranças pelo uso desse serviço (a) serão incluídas na taxa de câmbio ou (b) aparecerão como um item em uma linha separada»; a taxa «é determinada quando o pagamento total [...] é exibido durante o processo de finalização da compra», e o reembolso em caso de cancelamento é «exatamente o mesmo valor que cobramos inicialmente». Ou seja: você trava o câmbio, paga uma margem embutida e, se cancelar, recebe reais, não euros. O Airbnb cobra do hóspede uma taxa de serviço «que varia de 14,1% a 16,5% do subtotal da reserva», e o teto vale justamente para quem paga em moeda diferente da do anúncio. Em ambos, a única forma de saber o custo é comparar o total em reais com o valor em moeda local multiplicado pela PTAX do dia. E vale a regra da casa: o myroteiro identifica e analisa — você reserva onde quiser.
03A conta real: um hotel de € 1.200 pago de oito maneiras, na PTAX de 18/09/2026
Quatro noites a € 300, num 4 estrelas europeu de padrão médio: € 1.200. A cotação PTAX de venda do euro no fechamento de 18/09/2026 foi R$ 5,9126 (Banco Central), então o valor «limpo» da hospedagem é R$ 7.095,12. Tudo o que passa disso é custo de conversão — e é isso que a tabela compara. Os spreads dos cartões de crédito são a faixa que o Nubank atribui aos bancos tradicionais; as tarifas das contas globais são as publicadas pelas próprias empresas em 19/09/2026; o dinheiro vivo usa o ranking do VET do Banco Central de julho de 2026, o mês mais recente disponível na data da consulta.
| Como você paga | O que entra no custo | Total em R$ | A mais que a PTAX |
|---|---|---|---|
| Referência: € 1.200 × PTAX 5,9126 | Nada — é o valor «puro» | R$ 7.095,12 | — |
| Conta global com saldo em euro (ex.: Wise) | Conversão a partir de 0,4% + IOF 3,5% na carga | R$ 7.372,82 | R$ 277,70 (3,9%) |
| Conta global em dólar (ex.: Inter) | Spread até 0,99% + IOF 3,5% + 1% por compra fora do dólar + conversão dólar→euro da bandeira | a partir de R$ 7.416,15 | mais de R$ 321,03 (≥ 4,5%) |
| Crédito com spread de 3,5% e IOF devolvido (ex.: Nubank Ultravioleta, com mensalidade) | Spread 3,5%; IOF de R$ 257,02 cobrado e devolvido em até 7 dias | R$ 7.343,45 | R$ 248,33 (3,5%) |
| Crédito de banco tradicional, em euro | Spread de 4% a 6% + IOF 3,5% sobre o total | R$ 7.637,19 a R$ 7.784,06 | R$ 542,07 a R$ 688,94 (7,6% a 9,7%) |
| Dinheiro vivo comprado no Brasil | VET (câmbio + IOF + tarifa): mediana de jul/2026 = PTAX + 7,6%; melhor grande banco = + 6,5% | R$ 7.555,77 a R$ 7.637,63 | R$ 460,65 a R$ 542,51 |
| Crédito com conversão para reais no balcão (DCC) | Margem do hotel sobre a taxa do BCE (suponha 5%, o número que o visor teria de mostrar) + IOF 3,5%, se o banco classificar como internacional | R$ 7.449,88 a R$ 7.710,62 | R$ 354,76 a R$ 615,50 (5% a 8,7%) |
| Plataforma cobrando em reais («pague na sua moeda») | Margem embutida na taxa ou em linha separada; câmbio travado no checkout; reembolso em reais | só se sabe comparando com a PTAX | — |
Três leituras da tabela. Primeira: entre o melhor caminho comum (conta global com saldo na moeda certa) e o pior caminho comum (crédito de banco grande), a diferença fica entre R$ 264,36 e R$ 411,23 para uma hospedagem de € 1.200 — 3,7 a 5,8 pontos percentuais. Numa viagem de duas semanas com € 4.000 de hotel, essa mesma diferença vai de cerca de R$ 880 a mais de R$ 1.370. Segunda: o IOF, que é o que todo mundo discute, é uma fatia fixa de 3,5% em todas as linhas; o que separa uma linha da outra é o spread. Terceira: a conversão no balcão não tem preço fixo — a margem de 5% é só uma hipótese para dar tamanho ao problema. Se o visor mostrar 3%, ela é melhor do que o crédito tradicional; se mostrar 8%, é a pior de todas. A única defesa é ler o número antes de apertar o botão.
04O que aparece no balcão e não estava na reserva: caução, taxa de turismo e resort fee
O preço da reserva é o preço do quarto. No check-in aparecem outras três cobranças — uma que não é cobrança, e duas que são.
A pré-autorização (caução)
É um bloqueio no limite do cartão para cobrir a estadia e os extras que você ainda não consumiu. Não é uma compra: nada é lançado na fatura enquanto o hotel não «captura» o valor. Mas o limite fica indisponível, e num cartão de débito ou pré-pago é o saldo que fica preso. Os Termos da Booking.com avisam que, se o hotel exigir pagamento adiantado, «ele poderá ser tomado ou pré-autorizado quando você fizer a sua reserva» — antes de você pisar no hotel. O valor bloqueado varia por hotel (a estadia inteira, uma noite, um valor por dia de extras) e a liberação, depois do check-out, depende do hotel pedir o estorno da autorização e do seu banco processá-lo; o Nubank, por exemplo, escreve que estornos «podem levar de duas a três faturas» para aparecer. Pergunte no check-in quanto será bloqueado e peça que a caução vá para o crédito, não para o cartão com que você pretende pagar a conta. Um bloqueio esquecido é o motivo mais comum de o cartão «recusar» na semana seguinte — o guia sobre cartão bloqueado no exterior trata dos outros.
A taxa de turismo (city tax)
É um tributo municipal por pessoa e por noite, que o hotel recolhe para a prefeitura e quase nunca está no preço exibido na reserva. Em muitos lugares se paga no check-out, às vezes em dinheiro. Os valores oficiais em vigor em 19/09/2026:
| Cidade | Quanto | Regra | Fonte |
|---|---|---|---|
| Paris (2026) | € 2,60 (1 estrela) · € 3,25 (2) · € 5,53 (3) · € 8,45 (4) · € 11,70 (5) · € 15,93 (palace), por adulto e noite | Inclui as taxas adicionais departamental e regionais; não classificados pagam 5% do preço sem impostos, até € 15,93 | service-public.gouv.fr, tarifas de 01/01/2026 |
| Amsterdã (2026) | 12,5% do valor da noite, sem IVA | Mesma alíquota de 2025; o IVA sobre hospedagem subiu de 9% para 21% em 01/01/2026, o que encarece o preço base | amsterdam.nl; KHN (19/11/2025); Belastingdienst |
| Roma | € 4 (1 estrela) · € 5 (2) · € 6 (3) · € 7,50 (4) · € 10 (5) · € 6 (B&B e aluguel de curta duração), por pessoa e noite | Até 10 noites consecutivas na mesma hospedagem; tarifas em vigor desde 01/10/2023 | Roma Capitale, tabela oficial |
| Lisboa | € 4 por hóspede e noite | A partir de 13 anos, até 7 noites por estadia; era € 2 até 31/08/2024 | Câmara Municipal de Lisboa; Observador (24/07/2024) |
| Nova York | 5,875% + US$ 2,00 por quarto e dia (quartos de US$ 40 ou mais) + US$ 1,50 de taxa estadual por unidade e dia + 8,875% de sales tax | Cerca de 14,75% mais US$ 3,50 por noite sobre a diária; recolhidos pelo hotel | NYC Department of Finance; NYC311; tax.ny.gov |
Faça a conta antes de reservar: um casal, cinco noites num 4 estrelas de Paris, são € 84,50 de taxa que não estavam no preço — e que o hotel pode pedir em dinheiro. Em Roma, uma família de quatro numa semana de 3 estrelas paga € 168 no check-out. Nenhum desses valores é surpresa quando se sabe que existe; todos são quando não se sabe.
O «resort fee» americano
É uma tarifa obrigatória por noite que hotéis dos Estados Unidos cobravam à parte da diária anunciada — piscina, academia, wi-fi. Desde 12/05/2025, a regra da Federal Trade Commission sobre tarifas enganosas (16 CFR Part 464) exige que o preço total anunciado inclua «taxas obrigatórias», e o exemplo oficial é justamente o hotel: «uma diária de US$ 199 mais um resort fee obrigatório de US$ 39 por dia — o resort fee obrigatório deve ser incluído no preço total». Impostos e taxas governamentais podem ficar fora do primeiro preço, mas «antes de pedir o pagamento, a empresa deve informar as cobranças que excluiu do preço total». A regra vale também para plataformas e agências. Se um hotel americano ainda apresenta o resort fee como surpresa no check-in, ele está fora da regra — e você tem o texto para mostrar.
05Na prática: do clique na reserva à conferência da fatura, em oito passos
- Antes de reservar, descubra a moeda do hotel — não a que o site exibe para você. É nela que a cobrança acontece se você pagar no hotel, e é ela que a bandeira vai converter. Se o site oferece «pagar na sua moeda», calcule o total em reais dividido pela PTAX do dia e compare com o valor em moeda local: a diferença é a margem embutida.
- Decida entre pagar agora ou no hotel. Pagar agora trava o câmbio de hoje e costuma ter tarifa não reembolsável; pagar no hotel deixa a taxa flutuar até o check-out e em geral permite cancelar. Não há resposta certa — há a sua tolerância a risco cambial e a sua chance de mudar de plano. O guia sobre cancelamento grátis lista o que a tarifa flexível esconde.
- Escolha o par de cartões: um de crédito para a caução, uma conta global com saldo na moeda do destino para pagar. Carregue a conta em parcelas nas semanas anteriores — o IOF de 3,5% é o mesmo em qualquer dia, mas o câmbio não, e comprar em três ou quatro vezes dilui o risco de acertar o pior dia.
- No check-in, pergunte quanto será bloqueado e em qual cartão. Entregue o crédito. Se só houver débito ou pré-pago, saiba que o valor sai do saldo disponível até a liberação.
- Quando o visor perguntar a moeda, escolha a local. Sempre. Se o recepcionista já tiver escolhido reais por você, peça para cancelar e repassar: a Visa e o Regulamento (UE) 2019/518 garantem a escolha, e o comprovante tem de mostrar as duas moedas, a taxa e a margem.
- No check-out, peça a fatura detalhada com diárias, taxa de turismo e extras separados, na moeda local. Confira se a caução foi liberada (o hotel pede o estorno da autorização; você vê o limite voltar dias depois). Fotografe.
- Na fatura do cartão, leia as três colunas de cada linha do hotel: valor em dólar, taxa de conversão, valor em reais. Divida o valor em reais pelo valor em dólar e compare com a PTAX do dia da compra: essa diferença é o spread do seu banco, e é o número que decide qual cartão você leva na próxima viagem.
- Se a viagem é em grupo, acerte o câmbio antes de acertar as pessoas. Quem pagou o hotel adiantou euros; quem deve, deve reais — e a conversão justa é a que apareceu na fatura de quem pagou, IOF e spread incluídos, não a cotação do dia em que alguém se lembrou de cobrar. Um casal em três noites resolve isso numa mensagem. Cinco pessoas, dez dias e três moedas, não: é para esse caso que a Caixinha do myroteiro faz o câmbio por despesa, com IOF e spread, em 14 moedas, liga cada gasto ao dia do roteiro e gera o QR Pix do acerto para cada pessoa — o dinheiro nunca passa por nós, cada Pix vai direto de um para o outro. A divisão em reais e o QR Pix são gratuitos; para cinco pessoas acompanharem os mesmos gastos em tempo real e em moeda estrangeira, o câmbio por despesa e a sincronização entre os integrantes vêm com qualquer plano do roteiro — a versão grátis da Caixinha é para um usuário só, em reais.
06O que dá errado: seis erros que custam mais que o IOF
O IOF é 3,5%, previsível e igual para todo mundo. Os erros abaixo custam mais do que ele, e nenhum aparece como «erro» na fatura — aparecem como um total um pouco maior do que devia.
- Aceitar a conversão para reais «para saber quanto vai dar». Você sabe o total, mas paga a margem do hotel em vez do spread do seu banco — e a margem só é conhecida se o visor a mostrar. Numa hospedagem de € 1.200, cada ponto percentual de margem são cerca de R$ 71.
- Deixar a caução no cartão de débito ou pré-pago. O hotel bloqueia saldo, não limite. Se bloqueou € 800 de extras estimados na chegada, é o seu dinheiro de viagem que ficou indisponível até o estorno chegar.
- Pagar «em reais» num site estrangeiro achando que virou compra nacional. A moeda do visor não muda quem é o vendedor. Se a linha da fatura vier com as colunas de dólar e taxa de conversão, foi tratada como compra internacional — com IOF. Só uma cobrança feita por empresa brasileira, em reais, sem operação de câmbio no seu cartão, escapa — e aí a margem cambial está no preço.
- Esquecer a taxa de turismo no orçamento. € 8,45 por adulto e noite em Paris, 12,5% em Amsterdã, € 7,50 em Roma: para uma semana a dois, são dezenas de euros pedidos no check-out, às vezes em espécie, quando o dinheiro vivo já acabou.
- Cancelar uma reserva paga «na sua moeda» e esperar receber euros. A plataforma devolve «exatamente o mesmo valor que cobramos inicialmente» — em reais, ao câmbio da compra. Se o euro subiu, a nova reserva sai mais cara com o mesmo dinheiro.
- Carregar a conta global na moeda errada. Uma conta em dólar pagando um hotel em euros passa por duas conversões: a sua fintech e a bandeira. Contas que guardam euro (ou a moeda do destino) evitam a segunda.
07Como se preparar — e o que guardar para conferir a fatura depois
Nenhum dos caminhos acima é «o melhor» em todas as situações. O que existe é uma combinação que funciona para a maior parte das viagens da classe A/B, e uma lista curta de coisas a guardar para que a fatura não seja um ato de fé.
A combinação que funciona
- Uma conta global com saldo na moeda do destino, carregada em duas ou três parcelas nas semanas anteriores, para pagar a hospedagem no check-out em moeda local. Custo esperado: PTAX + 0,4% a 1% de conversão + 3,5% de IOF.
- Um cartão de crédito com limite folgado para a caução, que não vai virar despesa — e como reserva se a conta global falhar.
- Um pouco de dinheiro vivo para a taxa de turismo e gorjetas, trocado no Brasil no banco com melhor VET do ranking do Banco Central, não na casa de câmbio do aeroporto.
- Se a viagem é em família ou grupo, o acerto em reais feito a partir da fatura de quem pagou — não da cotação do dia da cobrança entre amigos.
O que guardar
- A confirmação da reserva com a moeda e a política de pagamento (agora ou no hotel; reembolsável ou não).
- O comprovante do visor na hora do pagamento, mostrando a moeda escolhida — é ele que prova, numa disputa, que a conversão foi ou não oferecida.
- A fatura detalhada do hotel em moeda local, com a taxa de turismo separada.
- A PTAX de venda do dia da compra, anotada ou em captura de tela do site do Banco Central.
- A fatura do cartão com as três colunas de cada linha — e a conta feita: valor em reais ÷ valor em dólar ÷ PTAX do dia = 1 + spread do seu banco.
«O Valor Efetivo Total (VET), expresso em reais por unidade de moeda estrangeira, é calculado considerando a taxa de câmbio, os tributos que incidem sobre a operação de câmbio e as tarifas eventualmente cobradas.» — Resolução BCB nº 277/2022, art. 18
É essa a pergunta a fazer a qualquer meio de pagamento, do banco ao visor do hotel: qual é o seu VET? Quem responde com um número comparável à PTAX merece o seu cartão. Quem responde com «sem taxas» ou «câmbio garantido» está falando de outra coisa.
Perguntas frequentes
É melhor pagar o hotel no exterior com cartão de crédito ou com conta global?+
Pagar o hotel em reais no visor da maquininha evita o IOF?+
Quanto tempo o hotel demora para liberar a caução do cartão?+
A taxa de turismo do hotel está incluída no preço da reserva?+
Vale a pena pagar o hotel com euros em espécie comprados no Brasil?+
Quando pago a reserva «na minha moeda» pelo site, quem faz o câmbio e a que taxa?+
Um cartão de banco estrangeiro paga IOF ao pagar hotel fora do Brasil?+
Como sei quanto meu banco cobrou de spread na diária do hotel?+
Pare de gastar horas pesquisando.
O myroteiro analisa seu cartão, calcula o orçamento real com IOF e monta seu dossiê em algumas horas, com revisão humana antes de enviar.
Começar meu roteiro