Câmbio e finanças

Cartão sem IOF na viagem existe? A conta em R$ 10 mil

Nenhum cartão emitido no Brasil escapa do IOF de 3,5% — o que existe são bancos que devolvem o imposto por promoção, com prazo, teto e letra miúda. Este guia mostra o que estava de pé em 19/09/2026, quanto cada opção custa em R$ 10 mil de compras e por que o spread pesa mais do que o imposto.

19 min de leituraAtualizado em Por myroteiro
Neste artigo7 seções + perguntas frequentes

Seis semanas antes de embarcar, você digita «melhor cartão sem IOF» e recebe dez listas. Cada uma coroa um banco diferente. Uma promete isenção total, outra fala em cashback, uma terceira ainda anuncia uma campanha que terminou em 31/08/2026. Você fecha as abas com mais dúvidas do que abriu — e com a sensação de que alguém está ganhando dinheiro com a sua confusão.

O que quase todo mundo entende errado é simples de enunciar: não existe cartão emitido no Brasil sem IOF. O decreto fixa 3,5% para crédito, débito, pré-pago, conta global e dinheiro em espécie — sem exceção por meio de pagamento. O que os bancos chamam de «IOF zero» é outra coisa: o imposto é recolhido normalmente e o banco devolve o valor do próprio bolso, por promoção, com regulamento, prazo, teto e, às vezes, cadastro prévio. E enquanto você olha para os 3,5% do imposto, o spread cambial — a margem que o banco coloca sobre o câmbio comercial — leva de zero a 6% do mesmo dinheiro, sem aparecer em nenhum título.

Este guia foi escrito com o texto do decreto no Planalto, os regulamentos das campanhas lidos em 19/09/2026, as páginas de tarifas das contas globais e a cotação PTAX do Banco Central. Você sai daqui sabendo o que cada banco promete de fato, quanto R$ 10 mil em compras custam em cada caminho — e onde a vantagem anunciada evapora.

O essencial em 30 segundos

  • >O IOF é de 3,5% para compras com qualquer cartão emitido no Brasil (Decreto nº 6.306/2007, art. 15-B, inciso VII, na redação do Decreto nº 12.499/2025). Nenhum banco isenta: o que existe é devolução por promoção — e o regulamento da Caixa diz isso com todas as letras.
  • >Em R$ 10 mil de compras, o IOF custa entre R$ 350 e R$ 371; o spread vai de R$ 0 (conta global com spread zero) a R$ 600 (cartão tradicional a 6%). O imposto incide sobre o valor já convertido — ou seja, também sobre o spread.
  • >Devolução do IOF com spread de 3,5% e IOF pago com spread zero dão o mesmo resultado: R$ 10.350. A diferença entre o pior e o melhor caminho da tabela é de R$ 621.
  • >Em 19/09/2026 estavam de pé: BTG (tempo indeterminado, parcelamento cobra IOF), Caixa (01/02/2026 a 31/01/2027, cadastro obrigatório, teto de R$ 700 no Platinum e R$ 1.400 no Infinite), Nubank Ultravioleta (devolução em até 7 dias, mensalidade de R$ 89 salvo isenção) e Porto Bank (aceite no app). Safra encerrou em 31/08/2026; Sicredi, em 30/04/2026.
  • >O único «sem IOF» permanente é o cartão emitido por banco estrangeiro: o imposto incide sobre operações de câmbio do sistema financeiro brasileiro, e o inciso V do mesmo artigo zera até o uso no Brasil de cartão emitido no exterior. Decide o país do emissor, não a moeda da fatura.

01O que diz a regra: 3,5% para todo cartão brasileiro, escrito em decreto

A alíquota do IOF sobre operações de câmbio está no Decreto nº 6.306, de 14/12/2007 (o regulamento do IOF), artigo 15-B, na redação dada pelo Decreto nº 12.499, de 11/06/2025. O texto consolidado no site do Planalto, lido em 19/09/2026, diz o seguinte sobre compras com cartão:

«VII - nas operações de câmbio destinadas ao cumprimento de obrigações das instituições que participem de arranjos de pagamento de abrangência transfronteiriça na qualidade de emissores destes, decorrentes de aquisição de bens e serviços do exterior efetuada por seus usuários, observado o disposto no inciso VIII: 3,5% (três inteiros e cinco décimos por cento);» — Decreto nº 6.306/2007, art. 15-B, redação do Decreto nº 12.499/2025

«Arranjo de pagamento de abrangência transfronteiriça» é o nome jurídico da bandeira do seu cartão. O mesmo artigo fixa a mesma alíquota para tudo o que um viajante usa:

  • Saques no exterior com cartão (inciso IX): 3,5%.
  • Cheques de viagem e carregamento de cartão pré-pago internacional para gastos pessoais em viagem (inciso X): 3,5%.
  • Compra de moeda em espécie (inciso XX): 3,5%.
  • Transferência para conta própria no exterior (inciso XXI): 3,5% — é o que acontece quando você carrega uma conta global.
  • A única alíquota menor é a do inciso XXI-A, 1,10% para transferência com finalidade de investimento — não é viagem, compra nem saque.

E a base de cálculo, no artigo 14, é «o montante em moeda nacional, recebido, entregue ou posto à disposição, correspondente ao valor, em moeda estrangeira, da operação de câmbio». Traduzindo: o imposto incide sobre o valor em reais que o banco já converteu — spread incluído. Um spread maior aumenta também o IOF, ainda que por pouco.

Por que você ainda encontra outros números

A alíquota mudou quatro vezes em menos de dois meses em 2025. O Decreto nº 12.466, de 22/05/2025, unificou tudo em 3,5%; o Congresso sustou os decretos em 25/06/2025 (Decreto Legislativo nº 176/2025); o STF, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, restabeleceu a regra; e a Receita Federal retomou a cobrança em 17/07/2025, sem retroatividade, segundo a Agência Brasil. Qualquer alíquota diferente de 3,5% que você leia numa página sobre cartão de viagem é anterior a maio de 2025 — ou é a de investimento aplicada ao caso errado.

Quem cobra, quem cria. O IOF é criado por decreto federal e recolhido pelo banco, que apenas repassa ao Tesouro. Nenhuma instituição tem poder de isentar você. O que ela pode fazer é pagar, do próprio caixa, um valor igual ao imposto — e é exatamente isso que toda campanha «IOF zero» faz, como veremos no regulamento da Caixa.

02«IOF zero» na prática: o que entra, o que não entra — e os quatro sentidos da expressão

A mesma expressão cobre quatro situações que não têm nada a ver umas com as outras. Ninguém te conta isso porque, para vender, a confusão ajuda.

1. Devolução por promoção — o caso de quase todos os bancos

O banco recolhe os 3,5% normalmente e credita o mesmo valor na fatura, como cashback. Os termos e condições da campanha da Caixa com a Visa, lidos em 19/09/2026, são de uma honestidade rara sobre a natureza da coisa:

«Em que pese o percentual descrito no item 2.9.1 seja proporcional ao percentual do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente sobre a Transação Válida, o Cashback objeto da presente Ação não corresponde à isenção, desobrigação de pagamento pelo Cliente Participante e/ou a devolução efetiva deste tributo federal.» — Termos e Condições da Ação «IOF Zero 2026», Visa e Caixa, item 2.9.3

Como é promoção, tem tudo o que uma promoção tem: prazo, teto, cadastro, prazo de crédito e cláusula de alteração ou encerramento a critério do banco («poderá cessar a qualquer momento sem aviso prévio», na página do BTG). A tabela da próxima seção mostra cada item, banco por banco.

2. Conta global — paga o mesmo imposto

Wise, Nomad e Inter Global Account informam, em suas próprias páginas de tarifas, IOF de 3,5% na conversão de reais para moeda estrangeira, e de 0,38% no caminho de volta — os incisos X e XXI ao pé da letra. O que essas contas mudam é o spread, que cai de 4% a 6% (a faixa que o próprio Nubank atribui aos bancos tradicionais) para algo entre zero e 1%. É um argumento real — mas é outro argumento.

3. Cartão emitido no exterior — o único zero verdadeiro

O IOF-câmbio incide sobre operações de câmbio de instituições autorizadas a operar no Brasil. Um cartão emitido por um banco estrangeiro, usado fora do Brasil, não gera operação de câmbio no sistema brasileiro — não há o que tributar. O decreto vai além: o inciso V zera a alíquota até para «gastos efetuados no País com utilização de cartão de crédito emitido no exterior». O que decide é o país do emissor, não a moeda da fatura: uma conta em dólar aberta numa instituição brasileira converte reais no Brasil e paga os 3,5%. Para quem tem conta no exterior, é uma isenção de fato; para quem não tem, não é um caminho para uma viagem de férias.

Atualização de 04/10/2026: existe um segundo caminho em que o IOF, na verdade, não incide hoje — e ele não passa por cartão de banco brasileiro. Fintechs como a ARQ convertem seus reais, antes da viagem, em dólar digital (uma stablecoin); nenhum ato fiscal publicado até hoje cobra IOF sobre essa compra de ativo virtual, e a regra pode mudar. Como funciona, quanto custa e quais são os riscos: gastar no exterior sem IOF, o caso ARQ.

4. O que não entra em nenhum dos três

  • Os 1,10% valem para transferência com finalidade de investimento (inciso XXI-A); o carregamento para gastos de viagem é operação distinta, a 3,5%.
  • Saque no cartão de crédito paga 3,5% (inciso IX) mais tarifa e juros do emissor — e as campanhas que lemos falam de compras.
  • Compra parcelada: no BTG, «no caso de parcelamento da compra, haverá cobrança de IOF».

03Comparativo: quem devolvia o IOF em 19/09/2026 — e com que letra miúda

A tabela abaixo não é um ranking: é o estado dos regulamentos e comunicados oficiais na data em que este guia foi escrito. Duas campanhas que ainda aparecem no topo das buscas já tinham terminado — o que diz muito sobre o prazo de validade desse tipo de vantagem.

Banco / cartãoO que prometeComo funcionaTetoValidade (lida em 19/09/2026)
BTG Pactual — cartões de crédito e débito do banco no Brasil«IOF Zero» em compras internacionaisNão há cobrança na fatura; compra parcelada paga IOF; fora os cartões da conta internacional (BTG Pactual U.S. Capital)Sem limite de valor anunciado (Exame, 25/08/2025)Desde 25/08/2025, «por tempo indeterminado e poderá cessar a qualquer momento sem aviso prévio»
Caixa — Visa Platinum, Visa Infinite, Ícone VisaCashback de 3,5% sobre compras internacionaisCrédito na fatura em até 45 dias úteis; cadastro obrigatório no site da campanha antes de comprar (Ícone participa automaticamente)R$ 700 (Platinum) · R$ 1.400 (Infinite) · sem teto (Ícone)01/02/2026 a 31/01/2027
Nubank Ultravioleta — Mastercard Black«IOF de volta na sua fatura»Devolução em até 7 dias; spread declarado de 3,5%; mensalidade de R$ 89, isenta com gastos acima de R$ 8 mil no cartão ou R$ 50 mil guardados/investidosNão informadoSem data de fim anunciada
Porto Bank — Internacional, Gold, Platinum, Ultra (Black e Infinite)IOF devolvido como cashbackCrédito automático na fatura; exige aceite no app da Porto; pessoa físicaNão informado no comunicado oficialDesde 13/05/2024, sem data de fim anunciada
Safra — crédito e débito«IOF zero» em compras internacionais——12/03/2026 a 31/08/2026 — encerrada
Sicredi — Visa InfiniteCashback igual ao IOF pagoCrédito em até 45 dias úteisR$ 450 por CPF18/12/2025 a 30/04/2026 — encerrada

Repare no que falta na tabela: o spread. Dos quatro bancos com campanha ativa, só o Nubank publica o seu (3,5%). BTG, Caixa e Porto não informam a margem que aplicam sobre o câmbio comercial — e é ela que decide a conta, como a próxima seção mostra. Um «IOF zero» com spread de 6% custa mais do que um IOF cobrado com spread de 1%.

Contas globais: o outro lado da comparação

Nenhuma delas devolve o imposto. Todas cobram menos pelo câmbio. Dados das páginas de tarifas de cada uma, lidas em 19/09/2026:

ContaSpread / tarifa sobre o câmbio comercialIOFSaque em caixa eletrônico
WiseTarifa «a partir de 0,4%», sobre a taxa de câmbio comercial3,5% na conversão1 grátis por mês; R$ 20 por saque a partir do segundo
Nomad«A partir de 1%»; 1% no nível 5 do Nomad Pass3,5% na carga; 0,38% + tarifa + US$ 10 na volta para reaisGrátis na rede MoneyPass; US$ 5 por saque fora dela
Inter Global AccountSpread «até 0,99%», conforme relacionamento; desde 04/09/2026, mais 1% em compras em moeda diferente do dólar3,5% na compra de dólar; 0,38% no resgateSem tarifa do Inter; o caixa eletrônico pode cobrar a sua
Nubank Conta Global UltravioletaSpread zero na conversão de reais para mais de 40 moedas (desde 30/06/2025, por tempo indeterminado); exige ser cliente Ultravioleta3,5% na conversão2 grátis por mês em caixas Mastercard

Um devolve os 3,5% e cobra a margem; o outro cobra os 3,5% e quase não tem margem. A próxima seção coloca os dois na mesma balança.

04A conta real: R$ 10 mil em compras, nove maneiras de pagar

Para comparar, fixamos a mesma cesta em todos os cenários: R$ 10.000 de compras medidos pela PTAX, a cotação de referência do Banco Central. Na PTAX de venda de 18/09/2026 (R$ 5,1575 por dólar), isso equivale a US$ 1.938,92; em euro (PTAX de R$ 5,9126), a € 1.691,30. Cada meio de pagamento acrescenta o seu spread sobre esse valor, e o IOF de 3,5% incide sobre o resultado em reais — regra do artigo 14. Quando há devolução, ela entra como crédito posterior.

Meio de pagamentoSpread / tarifaValor convertidoIOF (3,5%)DevolvidoSai do seu bolso
Cartão de crédito tradicional, spread de 6% (teto da faixa que o Nubank atribui aos bancos tradicionais)6%R$ 10.600,00R$ 371,00—R$ 10.971,00
Cartão tradicional, spread de 4% (piso da mesma faixa)4%R$ 10.400,00R$ 364,00—R$ 10.764,00
Espécie, ao VET mediano de julho/2026 (Ranking do VET do Banco Central, 50 instituições: R$ 5,4832 contra PTAX média de R$ 5,1139)7,22% acima da PTAX, IOF incluído—incluído—R$ 10.722,15
Cartão com devolução do IOF e spread não publicado (BTG, Caixa dentro do teto, Porto)não informadoR$ 10.000 + spread3,5% do convertidoigual ao IOFR$ 10.000 + spread (a 4%, R$ 10.400)
Cartão com devolução do IOF e spread de 3,5% (Nubank Ultravioleta, dado do banco)3,5%R$ 10.350,00R$ 362,25R$ 362,25R$ 10.350,00 (+ R$ 89 de mensalidade, se não isento)
Conta global, tarifa de 1% (Nomad no nível 5; Inter no teto da faixa)1%R$ 10.100,00R$ 350,00—≈ R$ 10.450
Conta global, tarifa de 0,4% (Wise, «a partir de»)0,4%R$ 10.040,00R$ 350,00—≈ R$ 10.390
Conta Global Ultravioleta, spread zero0%R$ 10.000,00R$ 350,00—R$ 10.350,00 (+ R$ 89 de mensalidade, se não isento)
Cartão emitido por banco estrangeirotarifa do banco estrangeiroR$ 10.000 + tarifaR$ 0—R$ 10.000 + tarifa

Quatro coisas saltam da tabela:

  1. O IOF é quase uma constante: R$ 350 a R$ 371. Os R$ 21 de diferença são o imposto sobre o spread. O spread, por sua vez, vai de R$ 0 a R$ 600. Quem discute só o imposto está discutindo a parte pequena.
  2. Devolução do IOF com spread de 3,5% e IOF pago com spread zero empatam em R$ 10.350. É o mesmo dinheiro por dois caminhos — e nenhum dos dois é «grátis».
  3. A distância entre o pior e o melhor caminho é de R$ 621 (R$ 10.971 contra R$ 10.350). Entre um cartão tradicional a 4% e uma conta global a 0,4%, R$ 374.
  4. O câmbio se move mais do que a tarifa. Em setembro de 2026, a PTAX de venda oscilou entre R$ 5,0856 (08/09) e R$ 5,1696 (14/09): 1,65%, ou R$ 165 na mesma cesta. Comprar moeda em duas ou três parcelas dilui essa variação — nenhum cartão faz isso por você.
A mensalidade come o imposto. No Nubank Ultravioleta, a mensalidade é de R$ 89 — R$ 1.068 por ano — e só é isenta com gastos acima de R$ 8 mil por mês no cartão ou R$ 50 mil guardados ou investidos no banco. Para que a devolução do IOF pague sozinha essa mensalidade, seriam necessários R$ 30.514 em compras internacionais no ano (R$ 1.068 ÷ 3,5%). Sem a isenção, a vantagem em R$ 10 mil de viagem não existe: os R$ 362,25 devolvidos custam R$ 1.068.

E os tetos da Caixa? R$ 1.400 no Visa Infinite correspondem a 3,5% de R$ 40.000 em compras; R$ 700 no Platinum, a R$ 20.000. Uma viagem de R$ 10 mil cabe folgada nos dois — duas viagens no ano, ou uma em família, já encostam no Platinum.

05Na prática: como escolher o seu, em seis passos

A pergunta «qual é o melhor cartão sem IOF» tem uma resposta melhor: «qual combinação custa menos para a minha viagem». Seis passos, na ordem.

  1. Meça o spread do cartão que você já tem. Numa compra internacional da última fatura, divida a taxa de conversão pela PTAX de venda daquele dia (site do Banco Central) e subtraia 1. A Resolução BCB nº 277/2022 (art. 52) obriga o emissor a mostrar taxa, valor em dólar e valor em reais de cada compra. Não existe ranking oficial de spread de cartão de crédito — o Ranking do VET do Banco Central cobre só espécie e pré-pago (em julho/2026, a mediana do pré-pago ficou 3,2% acima da PTAX média, descontado o IOF). A fatura é a sua única fonte.
  2. Se o seu banco anuncia «IOF zero», abra o regulamento e procure quatro palavras: cadastro (a Caixa não devolve compras feitas antes dele), teto (R$ 700, R$ 1.400, R$ 450…), validade (Safra e Sicredi já expiraram) e parcelamento (o BTG cobra IOF na compra parcelada). Salve o PDF ou um print com a data.
  3. Some as duas parcelas sobre o seu orçamento: spread + IOF que você de fato vai pagar depois da devolução. Use a tabela da seção anterior trocando R$ 10 mil pelo seu número. Cada ponto percentual de spread vale R$ 100 a cada R$ 10 mil.
  4. Decida a combinação, não o vencedor. O cartão de crédito continua sendo o único meio que serve de caução em hotel e locadora e que traz seguro-viagem embutido; a conta global paga o dia a dia com a menor margem. Levar os dois — e um pouco de espécie para o táxi da chegada — é o arranjo que sobrevive a um cartão bloqueado.
  5. Antes de embarcar, configure. Confira que a conversão é pela cotação do dia da compra: pelo art. 54, § 2º, da mesma Resolução, converter pela data do pagamento da fatura só pode acontecer «condicionada à expressa aceitação do cliente». Desbloqueie os cartões para uso internacional e anote os limites de saque.
  6. Na maquininha, moeda local — sempre. Quando o terminal oferece «pagar em reais», está oferecendo a conversão dinâmica de moeda (DCC): o comerciante converte com a margem dele, e seu banco ainda aplica o IOF por cima. A Visa é explícita: «estabelecimentos comerciais e caixas eletrônicos devem dar a você a opção de aceitar ou recusar a conversão de moeda». Recuse.
A regra dos R$ 350. Em R$ 10 mil de compras, o IOF vale R$ 350. Qualquer vantagem «IOF zero» que exija uma mensalidade maior do que isso, ou que venha com um spread 3,5 pontos acima da alternativa, já devolveu com uma mão o que tirou com a outra. Faça essa conta antes de trocar de banco por causa de uma campanha.

06O que dá errado: seis maneiras de perder a vantagem que você achou que tinha

Nenhum destes erros aparece na propaganda. Todos aparecem na fatura.

  1. Contar com uma promoção que já acabou. A campanha do Safra valeu de 12/03/2026 a 31/08/2026; a do Sicredi, de 18/12/2025 a 30/04/2026 — e em 19/09/2026 as duas ainda apareciam em listas de «melhores cartões sem IOF». A do BTG «poderá cessar a qualquer momento sem aviso prévio». Uma vantagem que depende de promoção se confere na semana da viagem, não no dia em que você leu a lista.
  2. Esquecer o cadastro. Na Caixa, o cliente Visa Platinum ou Infinite precisa se cadastrar no site da campanha antes de comprar; só o Ícone participa automaticamente. Comprar primeiro e cadastrar depois é pagar os 3,5% inteiros.
  3. Parcelar a compra. «No caso de parcelamento da compra, haverá cobrança de IOF» — página oficial do BTG. E o parcelamento no exterior ainda vem com juros do emissor.
  4. Aceitar a conversão da maquininha. A DCC é o único custo desta lista sem teto regulado: a margem é do comerciante, aparece só na tela do terminal e se soma ao spread do seu banco e ao IOF. A regra da Visa dá a você o direito de recusar; use-o.
  5. Pagar mensalidade maior do que o imposto. R$ 89 por mês são R$ 1.068 por ano; em R$ 10 mil de compras, o IOF devolvido são R$ 362,25. Sem a isenção (gastos acima de R$ 8 mil por mês ou R$ 50 mil guardados/investidos), o «IOF zero» custa três vezes o IOF.
  6. Sacar pouco e muitas vezes. O custo do saque é por operação: R$ 20 a partir do segundo saque do mês na Wise; US$ 5 fora da rede MoneyPass na Nomad; no cartão de crédito, IOF de 3,5% (inciso IX) mais tarifa e juros do emissor desde o dia do saque. Cinco saques de US$ 100 custam mais do que um de US$ 500 — e o caixa eletrônico ainda pode cobrar a tarifa dele, como o Inter avisa na própria página.
O teto vira surpresa no meio da viagem. No Visa Platinum da Caixa, o cashback para em R$ 700: a partir de R$ 20.000 em compras no período da ação, o IOF volta a ser pago por inteiro, sem aviso na maquininha. O regulamento ainda prevê que o percentual «poderá ser alterado durante o Período da Ação» e que a ação pode ser encerrada antes, se atingir o limite total (itens 2.9.4 e 6.6). Anote quanto você já gastou; o banco não vai fazer isso por você.

07Como se preparar — e o que guardar para conferir a fatura depois

A escolha do cartão termina antes da viagem; a conferência, só depois da última fatura.

O que levar guardado

  • O regulamento, com data. PDF ou print dos termos da campanha que você vai usar, mais a confirmação do cadastro, quando houver. É o que você mostra ao banco se a devolução não aparecer.
  • A conta global carregada em duas ou três parcelas, em dias diferentes — pela oscilação de setembro/2026 (1,65% no mês), isso dilui a sorte do câmbio. A carga paga 3,5% de IOF e a volta para reais, 0,38% mais tarifa: carregue o que vai gastar, não o dobro.
  • Um cartão de crédito como reserva, mesmo que o plano seja pagar tudo pela conta global — e os comprovantes com o valor em moeda estrangeira, que são o que você vai comparar com a fatura.

A conferência da fatura, linha por linha

  1. Para cada compra, a fatura deve trazer o valor em dólar, a taxa de conversão e o valor em reais (Resolução BCB nº 277/2022, art. 52). Se não traz, peça.
  2. Divida a taxa pela PTAX de venda do dia da compra; o resultado menos 1 é o spread que você pagou. Compare com o que o banco anunciou.
  3. Localize o IOF de cada operação (3,5% do valor em reais) e, se houver campanha, o crédito correspondente — em até 7 dias no Nubank Ultravioleta, em até 45 dias úteis na Caixa. Passado o prazo, reclame com o regulamento em mãos.

O «melhor cartão sem IOF» é um cartão que não existe. O melhor cartão para a sua viagem é o que tem o menor spread depois de descontada a devolução que você realmente vai receber — uma conta de dez minutos, não uma lista de dez bancos. Quando o roteiro estiver pronto, o myroteiro organiza as reservas e avisa das mudanças em tempo real; o cartão, você escolhe com esta conta na mão.

Perguntas frequentes

Existe algum cartão de crédito brasileiro realmente sem IOF para viagem internacional em 2026?+
Não. O Decreto nº 6.306/2007, art. 15-B, inciso VII (redação do Decreto nº 12.499/2025), fixa 3,5% para compras no exterior com qualquer cartão emitido no Brasil. O que existe é devolução do valor por promoção do banco — e o próprio regulamento da Caixa diz que o cashback «não corresponde à isenção». O único zero de fato é o cartão emitido por banco estrangeiro.
Cartão emitido por banco estrangeiro paga IOF quando eu uso no exterior ou no Brasil?+
Não paga. O IOF-câmbio incide sobre operações de câmbio de instituições autorizadas no Brasil; um cartão estrangeiro usado fora do país não gera nenhuma. E o inciso V do art. 15-B zera a alíquota até para gastos feitos no Brasil com cartão de crédito emitido no exterior. O que decide é o país do emissor — uma conta em dólar de instituição brasileira converte reais no Brasil e paga 3,5%.
Conta global como Wise, Nomad ou Inter paga menos IOF do que o cartão de crédito?+
Paga o mesmo: 3,5% na conversão de reais, conforme as páginas de tarifas das três (e 0,38% para trazer o saldo de volta). A economia da conta global está no spread — a partir de 0,4% na Wise, a partir de 1% na Nomad, até 0,99% no Inter — contra os 4% a 6% que o Nubank atribui aos bancos tradicionais. Em R$ 10 mil, são R$ 40 a R$ 100 de margem contra R$ 400 a R$ 600.
O Nubank Ultravioleta vale a pena só pela devolução do IOF nas compras internacionais?+
Só se você tiver a isenção da mensalidade (gastos acima de R$ 8 mil por mês no cartão ou R$ 50 mil guardados/investidos, segundo a página do banco). Sem ela, são R$ 89 por mês, R$ 1.068 por ano — a devolução do IOF só cobriria isso com R$ 30.514 em compras internacionais no ano. Com spread de 3,5%, R$ 10 mil de compras saem por R$ 10.350, o mesmo que uma conta global com spread zero.
A campanha IOF Zero da Caixa cobre toda a minha viagem? Tem limite?+
Vale para compras de 01/02/2026 a 31/01/2027 com Visa Platinum, Visa Infinite e Ícone, com cadastro prévio no site da campanha (o Ícone participa automaticamente). O cashback de 3,5% é creditado na fatura em até 45 dias úteis, com teto de R$ 700 por cliente no Platinum e R$ 1.400 no Infinite — o equivalente a R$ 20.000 e R$ 40.000 em compras. O Ícone não tem teto. Uma viagem de R$ 10 mil cabe nos três.
IOF zero do banco vale também para saque em dinheiro no exterior?+
Não conte com isso. O saque com cartão paga IOF de 3,5% por regra própria (inciso IX do art. 15-B), e as campanhas que lemos em 19/09/2026 descrevem compras: a Caixa fala em «transações válidas» em estabelecimentos, e a página oficial do BTG, em compras internacionais. Além do imposto, o saque no crédito tem tarifa e juros do emissor. Confira o regulamento antes de sacar — e prefira a conta global para dinheiro vivo.
Como descubro o spread que meu cartão cobra nas compras internacionais?+
Na fatura. A Resolução BCB nº 277/2022, art. 52, obriga o emissor a mostrar, para cada compra, o valor em dólar, a taxa de conversão e o valor em reais. Divida a taxa pela PTAX de venda do dia da compra, publicada pelo Banco Central, e subtraia 1. Exemplo ilustrativo: taxa de R$ 5,37 na fatura com PTAX de R$ 5,1575 dá 4,1% de spread. Repita em duas ou três compras para ter uma média.

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