Você desembarca em Miami depois de nove horas de voo noturno. São 7h da manhã, quatro voos chegaram juntos, e a fila da imigração serpenteia por um salão inteiro: uma hora e quarenta até o guichê. Ao seu lado, um americano encosta o rosto num quiosque, pega o recibo e cruza a fronteira em dois minutos. O nome disso é Global Entry — e o Brasil faz parte do programa desde 2022.
Só que tem um detalhe que quase nenhum texto sobre o assunto deixa claro logo de cara: desde meados de 2024, o CBP (Customs and Border Protection, a autoridade de fronteira dos EUA) suspendeu o recebimento de novas inscrições de cidadãos brasileiros — e, em julho de 2026, a fila continua fechada, sem data anunciada para reabrir. Quem já é membro segue usando normalmente. Quem quer entrar, espera.
Este guia explica como o programa funciona quando está aberto — a etapa brasileira com Polícia Federal, Receita Federal e Serpro, a taxa de US$ 120, a entrevista final —, faz a conta real de valer ou não a pena para quem vai aos EUA uma vez por ano, e desmonta um mito repetido por aí: o de que o app Mobile Passport Control seria o plano B do brasileiro. Para quem viaja com visto B1/B2, não é.
O essencial em 30 segundos
- >Global Entry custa US$ 120 (na casa de R$ 650–700, conforme câmbio e IOF), vale 5 anos e inclui TSA PreCheck nos voos domésticos americanos — cerca de US$ 24 por ano.
- >Novas inscrições de brasileiros estão suspensas pelo CBP desde meados de 2024 e seguiam suspensas em julho de 2026, sem prazo para retomada; quem já é membro continua usando normalmente.
- >Global Entry não substitui visto: o brasileiro precisa de B1/B2 válido no passaporte para se inscrever e para usar os quiosques.
- >A etapa brasileira do processo passa por Polícia Federal e Receita Federal, via sistema do Serpro, antes da decisão final — que é sempre do CBP.
- >Mobile Passport Control não é alternativa para o brasileiro comum: o app aceita cidadãos americanos, residentes permanentes, canadenses com B1/B2 e viajantes com ESTA — o B1/B2 brasileiro fica de fora.
01O que é o Global Entry (e o que ele não é)
O Global Entry é o programa de viajante confiável do CBP. A lógica é simples: você entrega seus dados, passa por checagem de antecedentes nos dois países e por uma entrevista; em troca, nas próximas chegadas aos EUA, pula a fila comum da imigração e usa um quiosque com biometria facial — na prática, minutos em vez de uma hora ou mais nos horários de pico de aeroportos como Miami, JFK e Orlando.
O pacote traz um bônus que muita gente ignora: membros do Global Entry ganham acesso ao TSA PreCheck, a fila rápida de segurança nos voos domésticos dentro dos EUA — sem tirar sapato, sem tirar notebook da mala. Se o seu roteiro combina, por exemplo, Orlando com Nova York, isso vale nas duas pernas internas.
Agora, o que o Global Entry não é:
- Não é visto. Brasileiro continua precisando de visto B1/B2 válido — os EUA não têm ESTA para o Brasil, nem mesmo em conexão.
- Não é garantia de entrada. O oficial pode, a qualquer momento, encaminhar um membro para inspeção secundária. O programa acelera o processo; não blinda ninguém.
- Não é transferível. A adesão é individual — cada pessoa da família paga e passa pelo processo completo, inclusive crianças (com isenção de taxa para menores de 18 acompanhados de responsável membro, regra vigente desde o reajuste de 2024).
02Status em julho de 2026: novas inscrições suspensas
Aqui está a parte que ninguém te conta antes de você abrir o formulário. O Brasil entrou oficialmente no Global Entry em 2022, com festa e comunicado da Polícia Federal. Em meados de 2024, porém, o CBP suspendeu o recebimento de novas inscrições de cidadãos brasileiros — primeiro alegando problemas técnicos, depois citando questões de segurança e privacidade, sem detalhar. Em julho de 2026, a suspensão seguia em vigor, sem cronograma público de retomada.
Suspenso não é cancelado. O programa continua de pé para quem já entrou — a porta é que está fechada para novos brasileiros, sem data para reabrir.
O que isso significa na prática, caso a caso:
- Já é membro ativo: nada muda. Os quiosques continuam funcionando para você, e o TSA PreCheck também.
- Tinha aprovação condicional pendente: acompanhe sua conta no portal Trusted Traveler Programs (ttp.dhs.gov) — é lá que o CBP comunica qualquer mudança de status ou instrução sobre a entrevista.
- Quer se inscrever agora: não há fila para entrar. Monitore o site oficial do CBP (cbp.gov, página "Global Entry for Citizens of Brazil") e o portal TTP; desconfie de qualquer site que prometa "inscrição garantida" mediante pagamento.
03Como funciona o processo quando está aberto
Vale entender o fluxo completo por dois motivos: primeiro, porque a suspensão pode ser revertida a qualquer momento e quem conhece o processo sai na frente; segundo, porque o desenho do programa para brasileiros tem uma etapa nacional que não existe para outros países.
| Etapa | O que acontece | Prazo típico |
|---|---|---|
| 1. Conta no TTP | Cadastro no portal Trusted Traveler Programs (via login.gov) e formulário completo: dados pessoais, CPF, passaporte, visto americano, histórico de viagens e endereços | 30–60 min de preenchimento |
| 2. Pagamento | US$ 120 no cartão, dentro do próprio portal — não reembolsável | Imediato |
| 3. Checagem brasileira | Polícia Federal e Receita Federal analisam antecedentes via sistema do Serpro; o resultado subsidia a decisão americana | Semanas |
| 4. Aprovação condicional | O CBP cruza os dados e, se tudo estiver limpo, libera a etapa da entrevista | Semanas a meses |
| 5. Entrevista | Em um Enrollment Center nos EUA (com agendamento) ou via Enrollment on Arrival, ao desembarcar de um voo internacional | 10–20 min de conversa |
| 6. Aprovação final | Adesão ativa por 5 anos; seu número KTN vale para o TSA PreCheck | — |
Dois detalhes que fazem diferença:
- A decisão é sempre do CBP. A etapa Serpro/PF/Receita filtra pendências brasileiras (antecedentes criminais, situação fiscal), mas quem aceita ou recusa é o governo americano — e ele não explica negativas.
- Enrollment on Arrival resolve a entrevista sem agendamento. Em vez de caçar horário em um Enrollment Center (as agendas de cidades turísticas lotam com meses de antecedência), quem tem aprovação condicional pode fazer a entrevista na chegada do próximo voo internacional aos EUA, em aeroportos participantes. Para quem mora no Brasil, é de longe o caminho mais prático.
Os prazos acima são históricos, de quando o programa operava normalmente para brasileiros — trate como referência, não como promessa. E responda o formulário com precisão de documento: divergência entre o que você declara e o que o sistema cruza é o jeito mais bobo de perder US$ 120.
04A conta real: vale a pena para quem vai 1x por ano?
Vamos ao número, sem romantizar. US$ 120 por 5 anos dá US$ 24 por ano — com dólar e IOF de meados de 2026, algo na casa de R$ 130–140 anuais. Não é o preço de um seguro viagem; é o preço de dois cafés em aeroporto americano.
O que você compra com isso é tempo em um lugar específico: o salão de imigração. Em picos de chegada de voos do Brasil — manhãs em Miami e Orlando, fins de tarde em JFK —, a fila comum pode passar tranquilamente de uma hora. O quiosque do Global Entry resolve em minutos. Se a sua conexão para outro voo depende dessa fila, a diferença deixa de ser conforto e vira o voo seguinte — faça a simulação no nosso calculador de tempo de conexão antes de fechar itinerário.
A conta real é essa: US$ 24 por ano para transformar a pior fila da viagem em dois minutos de quiosque. O problema em 2026 não é o preço — é que a porta está fechada.
Para quem vai uma vez por ano, a matemática fecha com folga: cinco entradas no período de validade, mais o TSA PreCheck em cada trecho doméstico, por menos de R$ 150 anuais. Para quem vai uma vez a cada três anos, é discutível — você pagaria US$ 120 por talvez duas utilizações, e a fila comum, embora lenta, funciona.
Um aviso sobre cartões: o famoso benefício de "Global Entry reembolsado pelo cartão de crédito" vale, na prática, para cartões emitidos nos EUA. Cartões brasileiros premium — mesmo os Black — em geral não trazem esse crédito. Confira as regras do seu emissor antes de contar com o reembolso; na dúvida, assuma que os US$ 120 saem do seu bolso.
05Global Entry vs Mobile Passport Control: o plano B que não é
Desde a suspensão, virou lugar-comum indicar o app Mobile Passport Control (MPC) como "alternativa gratuita ao Global Entry". O app existe, é oficial do CBP, é gratuito e de fato acelera a chegada: você preenche a declaração pelo celular antes de descer do avião e usa uma fila dedicada em dezenas de aeroportos americanos. Só tem um problema, e ele é eliminatório.
| Global Entry | Mobile Passport Control | |
|---|---|---|
| Quem pode usar | Cidadãos de países conveniados (Brasil incluído, com inscrições suspensas em 2026) | Cidadãos americanos, residentes permanentes, canadenses com B1/B2 e viajantes do Visa Waiver com ESTA |
| Brasileiro com visto B1/B2 | Elegível quando as inscrições estão abertas | Não elegível |
| Custo | US$ 120 por 5 anos | Gratuito |
| Checagem prévia + entrevista | Sim | Não |
| TSA PreCheck incluído | Sim | Não |
| O que acelera | Quiosque próprio, pula a fila comum | Fila dedicada, declaração pré-enviada |
Ninguém te conta isso: o MPC aceita cidadãos americanos, residentes permanentes, canadenses portando visto B1/B2 e viajantes de países do Visa Waiver Program com ESTA aprovado. O Brasil não está no Visa Waiver — não existe ESTA para brasileiro — e a exceção do B1/B2 vale para a cidadania canadense, não para o visto em si. Tradução: o brasileiro típico, de passaporte azul e visto de turista, não pode usar o app.
As exceções reais são poucas: brasileiros com green card, dupla cidadania americana ou canadense, ou cidadania de um país do Visa Waiver (um ítalo-brasileiro viajando com passaporte italiano e ESTA, por exemplo). Se você se encaixa numa delas, o MPC é gratuito e funciona. Se não, siga para a próxima seção — o plano B de verdade é menos glamouroso.
06O que fazer enquanto as inscrições não reabrem
Sem Global Entry e sem MPC, o brasileiro volta ao básico bem-feito. A boa notícia: a fila comum da imigração americana é lenta, mas previsível — e dá para tirar atrito dela com preparação.
- Chegue com as respostas prontas. O oficial vai perguntar onde você fica, por quanto tempo e com que dinheiro. Endereço do hotel anotado (não "está no e-mail"), passagem de volta acessível, seguro e reservas à mão. O nosso guia de o que responder na imigração americana cobre as perguntas reais, uma a uma.
- Desenhe conexões com folga. Sem fila rápida, considere a imigração no primeiro ponto de entrada como um bloco de 60–90 minutos em horário de pico — antes de recuperar mala e redespachar. Conexão doméstica de 1h20 depois de voo internacional é aposta, não planejamento.
- Verifique o visto com antecedência. A espera por agendamento de visto B1/B2 varia por consulado e por época; quem deixa para o fim descobre que o gargalo da viagem nunca foi a fila do aeroporto.
- Monitore a fonte oficial, não boato. A retomada das inscrições, se vier, será anunciada em cbp.gov e no portal ttp.dhs.gov. Grupo de WhatsApp não é fonte de política migratória.
E se as inscrições reabrirem antes da sua próxima viagem? Aí a recomendação é direta: quem visita os EUA ao menos uma vez por ano deveria entrar na fila do Global Entry no primeiro dia. A conta de US$ 24 anuais se paga na primeira manhã de pico em Miami.
Perguntas frequentes
O Global Entry está aberto para brasileiros em 2026?+
Quem já tem Global Entry perde o benefício com a suspensão?+
Preciso de visto americano mesmo tendo Global Entry?+
Quanto custa o Global Entry e a taxa é reembolsável?+
Brasileiro pode usar o app Mobile Passport Control em vez do Global Entry?+
O que é Enrollment on Arrival e como funciona para quem mora no Brasil?+
Global Entry garante que vou passar pela imigração sem problemas?+
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