Era uma sexta-feira de manhã no Aeroporto de Guarulhos. A família tinha voo às 10h para Orlando. A mãe, os dois filhos e a avó. O pai ficaria no Brasil trabalhando. Na fila da imigração, o agente pediu a autorização notarial do pai para as crianças saírem do país. O documento existia — só que estava lavrado num cartório de São Paulo, sem apostilamento, e a viagem passaria por Lisboa. Portugal não aceitou. Família rebocada de volta ao saguão. Voo perdido. Hotel de R$ 1.200 a noite. Reembolso: nenhum.
Esse tipo de situação acontece toda semana no Brasil. Não por má-fé, mas por desinformação. A legislação sobre autorização de viagem para menor mudou com o Estatuto da Criança e do Adolescente, foi ajustada pela Resolução CNJ nº 131/2011 e tem particularidades que variam conforme o destino, a custódia e quem vai acompanhando a criança.
Este guia resolve de uma vez: quem precisa de autorização, quem dispensa, qual cartório lavra, quanto custa, quando apostilar, e o que cada país exige além do que o Brasil manda. Ninguém te conta tudo isso junto — aqui está.
O essencial em 30 segundos
- >Criança viajando com ambos os pais não precisa de autorização — mas pode ser pedida prova de parentesco (certidão de nascimento com tradução juramentada no exterior).
- >Com apenas um dos pais, a autorização do outro é obrigatória desde 2000 e deve ser lavrada em cartório de notas, não em qualquer cartório de registro.
- >Menor viajando sozinho ou com terceiros exige autorização de ambos os genitores, com firma reconhecida, e em muitos países o documento precisa de Apostila da Haia.
- >O custo total — cartório + apostila + tradução juramentada — pode chegar a R$ 800–1.400 por documento, dependendo do estado e do destino.
- >A autorização tem validade livre (você define), mas agentes de imigração desconfiam de documentos com mais de 2 anos; recomenda-se prazo máximo de 12 meses.
01Quando a autorização é obrigatória — e quando não é
A regra central está no artigo 84 do ECA (Lei 8.069/1990) e na regulamentação da Portaria Interministerial nº 2/2021, que consolidou os procedimentos. O critério é simples: quem acompanha a criança.
Situações que DISPENSAM autorização
- Ambos os pais viajando juntos com a criança — mas leve a certidão de nascimento em caso de sobrenome diferente.
- Criança com apenas um dos pais, quando o outro é falecido — presente a certidão de óbito.
- Criança sob guarda unilateral documentada — com sentença judicial de guarda exclusiva que autorize viagens internacionais; isso deve estar explícito na decisão.
- Criança emancipada — apresentar instrumento de emancipação.
Situações que EXIGEM autorização
- Criança viajando com apenas um dos pais (o outro deve autorizar).
- Criança viajando sozinha (ambos os pais autorizam).
- Criança viajando com avós, tios, padrinhos ou qualquer terceiro (ambos os pais autorizam).
- Criança com guarda compartilhada viajando com um dos genitores (o outro deve autorizar).
Um detalhe que a maioria esquece: a imigração brasileira verifica na saída, mas o problema maior é a imigração do país de destino. Os EUA, por exemplo, podem questionar mesmo quando o Brasil libera. Por isso a autorização precisa ser robusta o suficiente para os dois lados.
02Como lavrar a autorização: cartório, modelo e o que não pode faltar
A autorização de viagem para menor é um ato notarial, lavrado exclusivamente em Cartório de Notas (Tabelionato de Notas). Não é Cartório de Registro Civil, não é Cartório de Protesto — é Notas.
Documentos que o autorizante precisa levar
- RG ou CNH do genitor que autoriza (documento com foto).
- Certidão de nascimento da criança (original ou cópia autenticada).
- Passaporte da criança (número vai constar na autorização).
- Endereço completo de hospedagem no destino (opcional mas recomendado para viagens aos EUA e Europa).
O que o documento deve conter — sem exceção
- Nome completo da criança, data de nascimento e número do passaporte.
- Nome completo do genitor autorizante e do acompanhante (se terceiro).
- Destino(s) — seja específico: "Portugal e Espanha" é melhor que "Europa".
- Período de vigência — data de início e data de fim.
- Finalidade da viagem (turismo, intercâmbio, tratamento médico).
- Assinatura com firma reconhecida por autenticidade (não por semelhança).
Modelo que funciona (estrutura)
"Eu, [NOME DO GENITOR], brasileiro(a), portador(a) do RG nº [...] e CPF nº [...], residente em [...], na qualidade de [pai/mãe] do menor [NOME DA CRIANÇA], nascido(a) em [...], titular do Passaporte nº [...], AUTORIZO o(a) referido(a) menor a viajar ao exterior, com destino a [PAÍSES], acompanhado(a) de [NOME DO ACOMPANHANTE], no período de [DATA] a [DATA], para fins de [FINALIDADE]. Declaro estar ciente das condições da viagem e assumo total responsabilidade pela autorização ora concedida."
O modelo acima é uma referência — o tabelião vai adequar ao padrão do cartório e ao estado. Não existe um modelo único nacional, mas todos precisam dos elementos listados acima para ter validade.
03Apostila da Haia e tradução juramentada: quando são obrigatórias
Aqui está o ponto onde a maioria das famílias erra: a autorização lavrada no Brasil tem valor pleno em território nacional, mas para ser reconhecida no exterior precisa passar por um processo adicional.
O que é a Apostila da Haia
É um certificado emitido pela autoridade competente do país de origem (no Brasil, pelo Tribunal de Justiça do estado onde o cartório está registrado) que autentica a assinatura do tabelião. Regulamentada pela Convenção da Haia de 1961, da qual o Brasil é signatário desde 2016. Custo em 2026: R$ 120–250 dependendo do estado.
Quais países exigem apostila
| País de destino | Apostila necessária? | Tradução juramentada? | Obs. |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | Recomendada | Para inglês se pedida | CBP pode exigir na fronteira |
| Portugal | Sim (Haia) | Não (PT é o mesmo idioma) | SEF verifica na chegada |
| França | Sim | Sim (francês) | DGPN exige tradução certificada |
| Espanha | Sim | Sim (espanhol) | Policia Nacional rigorosa |
| Itália | Sim | Sim (italiano) | Polizia di Frontiera |
| Argentina | Não (Mercosul) | Não | Acordo bilateral dispensa |
| Chile | Não (Mercosul) | Não | Idem Argentina |
| Japão | Sim | Sim (japonês) | Exigência rigorosa |
| Canadá | Recomendada | Para inglês ou francês | CBSA pode pedir |
| México | Não usualmente | Espanhol simples | Depende do agente |
Onde tirar a apostila no Brasil
Cada estado tem um ponto específico. Em São Paulo: TJSP, pelo portal e-apostila (tjsp.jus.br). No Rio: TJRJ. A maioria dos estados já tem sistema online com envio pelo correio. Prazo médio: 3–10 dias úteis. Custo médio em 2026: R$ 130 (SP), R$ 160 (RJ), R$ 180 (outros estados).
Tradução juramentada
Necessária quando o país exige o documento no idioma local. Só tradutores juramentados credenciados pela Junta Comercial do estado têm validade legal. Custo: R$ 300–600 por lauda, dependendo do idioma e da urgência. Japonês e árabe costumam ser mais caros.
04A conta real: quanto custa fazer tudo direito
Vamos colocar números concretos para você se planejar sem surpresa.
Se o pai e a mãe precisam assinar (viagem com terceiro), multiplique o custo do cartório por dois — são dois atos notariais separados. Alguns tabeliões fazem no mesmo instrumento com desconto; pergunte antes.
Custos adicionais que ninguém menciona
- Reconhecimento de firma em cartório: R$ 15–40 por assinatura (já incluso na maioria dos atos notariais, mas confirme).
- Autenticação de cópia da certidão de nascimento: R$ 10–20.
- Certidão de óbito do outro genitor (quando aplicável): depende do estado civil — gratuita em muitos cartórios de registro.
- Urgência no cartório: alguns cobram taxa extra de R$ 50–100 para lavrar no mesmo dia.
05Validade, prazo de antecedência e renovação
A lei não fixa prazo máximo de validade para a autorização — quem define é o genitor autorizante no momento da lavratura. Mas existe uma diferença importante entre o que é legalmente válido e o que a imigração aceita na prática.
Prazo de validade recomendado
- Viagem única: emita com datas específicas de saída e retorno. Isso elimina qualquer dúvida sobre se o documento ainda é válido.
- Viagens recorrentes (intercâmbio, criança que viaja frequentemente): autorização com vigência de até 12 meses é bem aceita. Acima disso, agentes de imigração ficam desconfiados — preferem pedir uma nova.
- Autorização "por tempo indeterminado": tecnicamente permitida, mas Suíça, Alemanha e Reino Unido já recusaram documentos com essa cláusula. Evite.
Com quanto tempo de antecedência fazer
Considere o seguinte fluxo e os prazos em 2026:
- Lavratura no cartório: 1–3 dias úteis (pode ser no mesmo dia em urgência).
- Apostila da Haia: 3–10 dias úteis (SP tem feito em 3–5 dias pelo sistema online).
- Tradução juramentada: 3–7 dias úteis dependendo do idioma.
- Total mínimo recomendado: 15 dias antes da viagem.
- Margem segura: 30 dias antes.
Se você está planejando uma viagem para julho de 2026 e ainda não tem nada, o ideal é resolver em maio. Não deixe para a última semana.
E se o genitor estiver no exterior?
O genitor que precisa autorizar pode fazê-lo no Consulado Brasileiro do país onde está. O consulado tem função notarial e pode lavrar a autorização. O documento, quando emitido por consulado brasileiro, já tem validade internacional sem precisar de apostila adicional — ele é um documento consular com força equivalente. Custo: varia por consulado, em média USD 30–80.
06Casos especiais: pai ausente, genitor desconhecido, guarda judicial e adoção
Nem todo caso é pai e mãe casados, filhos biológicos, morando no mesmo país. A realidade das famílias brasileiras é mais complexa — e a burocracia precisa acompanhar.
Pai ou mãe desconhecido(a)
Se a certidão de nascimento tem apenas um genitor registrado (registro unilateral), apenas esse genitor precisa autorizar. A ausência do segundo nome na certidão é a própria prova — leve o documento original.
Genitor que se recusa a assinar
Situação dolorosa e frequente. A solução é judicial: o genitor que vai viajar pede ao juiz da Vara da Infância e Juventude a autorização judicial de viagem. Com a decisão judicial em mãos, o cartório ou a autoridade de imigração aceita como substituta da autorização notarial. Prazo: depende da comarca, mas juízes têm dado decisões em regime de urgência em 5–15 dias.
Guarda unilateral
Se você tem a guarda unilateral por sentença judicial, leve a sentença. Mas atenção: a sentença precisa conter expressamente a autorização para viagens internacionais. Se não constar, você ainda precisará da autorização do outro genitor ou de uma decisão complementar do juiz.
Adoção
Criança adotada segue as mesmas regras — os pais adotivos têm o mesmo status legal que biológicos. Mas leve a certidão de nascimento pós-adoção (não a original de antes do processo), que já constará os nomes dos adotantes.
Menor sob tutela
O tutor nomeado judicialmente pode autorizar a viagem, desde que o termo de tutela esteja vigente e não haja restrição judicial específica. Leve o termo de tutela original.
07Os 7 erros que reprovam na imigração — e como evitar cada um
Compilamos os casos mais frequentes reportados em grupos de viagem e fóruns de expatriados brasileiros. Esses são os erros reais, não os teóricos.
- Cartório errado: fazer a autorização em Cartório de Registro Civil em vez de Tabelionato de Notas. O documento é inválido — tem aparência oficial mas não tem valor. Sempre confira: "Tabelionato" ou "Notas" no nome.
- Firma por semelhança: o tabelião reconhece a assinatura comparando com uma ficha — não viu o genitor pessoalmente. Vários países europeus recusam. Exija "por autenticidade".
- Sem número do passaporte: a autorização que não especifica o passaporte da criança é tratada como genérica demais. Coloque o número — e se o passaporte for renovado antes da viagem, a autorização precisa ser refeita.
- Destino vago: "viagem internacional" ou "América do Norte" é insuficiente. Escreva os países específicos.
- Sem apostila para países fora do Mercosul: já explicamos acima. O erro mais caro porque o documento existe mas é inútil no destino.
- Autorização vencida na data de retorno: a criança entra no país com autorização válida, mas ela vence durante a viagem. Na saída, o país de destino pode questionar. Emita sempre com data além do retorno previsto — coloque 3–5 dias de margem.
- Documento em PDF impresso em casa: autorização original com assinatura e selo do tabelião. Cópia simples não tem valor. Leve o original e uma cópia autenticada como backup.
Perguntas frequentes
Criança com dupla cidadania brasileira e americana precisa de autorização para viajar?+
Minha filha tem 17 anos e vai em intercâmbio por 6 meses. A autorização cobre o período todo?+
Pai falecido: quais documentos levar além da certidão de óbito?+
A autorização feita por WhatsApp ou e-mail tem valor?+
Quanto tempo leva para obter autorização judicial quando o pai se recusa a assinar?+
Preciso de autorização se a criança vai de ônibus para o Uruguai ou Argentina?+
A avó pode assinar a autorização como responsável?+
Passaporte da criança vence durante a viagem. Isso é problema?+
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